sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Música e depressão

"A verdade da alma é a música. As palavras são só um suporte. elas existem para produzir o espaço vazio e silencioso de que a música necessita para existir. Sabem disso os  amantes: não são as palavras que contam. É a música.
Depressão é quando o Inconsciente fica tocando uma única música triste. Por que ele não muda o disco? Pela mesma razão por que a gente põe a músca para ser tocada de novo: porque é bonita.
Um cientista explica em sua lógica: a dor não existe, só existe uma corrente elétrica de uma certa frequência que o cérebro interpreta como a dor, se a gente anular a tal corrente o cérebro não recebe a tal mensagem. Existem maquinetas na ciência que anulam dores físicas, produzem correntes elétricas, que encaixada na sua dor vai anulá-la, o negativo anula o positivo.
Há uma trágica beleza na depressão, literariamente a depressão produz muitos romances e novelas. a alegria, ao contrário, sozinha, não produz literatura. É preciso fazer com ela aquilo que a maquineta de tirar dor faz com a dor: produzir uma contramúsica
A magia da música tem a ver com isto: a alma é seduzida pela beleza, possuída, deixa-se levar. Beethoven não nos proíbe a depressão: ele a conhecia muito bem, mas ele nos proíbe de ser derrotados por ela." Por Rubem Alves.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Nossa verdade

"A nossa verdade anda sempre enterrada. Ela é aquela menina que a madrasta enterrou viva: dela só se veem os cabelos, que crescem como relva, e o jardineiro pensa que aquilo não passa de bom capim para cavalo comer. Assim somos nós: a verdade, a razãoque nos salvaria, isso nós consideramos que não passa de rações para animais." Por Rubem Alves.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Dias com Sol

Tem dias que é assim que vemos o mundo... com aquela vontade misturada de rir e fazer  um pouco de comédia da vida que nos é tão válida em sua dureza.
Uma simples e carismática imagem nos faz pensar em quanto é necessário simplificar o que temos e o que somos...um sorriso que nos mostra a necessidade de preservarmos esse sentimento de desapego egratidão por tudo em nossa volta.
A criança tem essa magia em tempo integral, poderíamos recordar sempre esse estado de espírito de quando vivíamos essa fase.
A única nessecidade existente é  de sorrir e arrancar sorrisos, nada mais. Uma belíssima missão.
Recordemos essa sentimento que nasce conosco e luta para morrer juntinho de nós...a arte de ser, simplesmente ser. Gratidão pela vida!

Máscaras

"A criança sempre horroriza o público. A criança ainda não aprendeu o papel, não usa máscaras, não participa da farça, não representa. Seu rosto e seu eu são a mesma coisa. A qualquer momento a verdade que não devia ser dita pode ser dita pela sua boca.
A máscara colada no nosso rosto só pode ser retirada por uma outra pessoa. Ela só se desprega da nossa pele quando tocada pelo toque do amor. E assim sabemos que estamos amando: quando diante daquela pessoa, a máscara cai e voltamos a ser crianças..." Por Rubem Alves.

Dá-me o que quero!

A flor que és, não a que dás, eu quero.

Porque me negas o que te não peço.

Tempo há para negares
Depois de teres dado.

Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.

Ricardo Reis

Cumpramos o que somos

Cada Um

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis

Sobre Ricardo Reis

Ricardo Reis (19 de setembro de 1887) é um dos quatro heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, tendo sido imaginado de relance pelo poeta em 1913 quando lhe veio à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Nasceu no Porto, estudou num colégio de jesuítas, formou-se em medicina e, por ser monárquico, expatriou-se espontaneamente desde 1919, indo viver no Brasil. Era latinista por formação clássica e semi-helenista por autodidactismo. Na sua biografia não consta a sua morte, no entanto José Saramago faz uma intervenção sobre o assunto em seu livro O Ano da Morte de Ricardo Reis, situando a morte de Reis em 1936.


Reis, também discípulo de Caeiro, admira a serenidade e a calma com que este encara a vida[2], por isso, inspirado pela clareza, pelo equilíbrio e ordem do seu espírito clássico greco-latino, procura atingir a paz e o equilíbrio sem sofrer, através da autodisciplina e das seguintes doutrinas gregas:

 Epicurismo

Doutrina baseada num ideal de sabedoria que busca a tranquilidade da alma através das seguintes regras:
  • Não temer a morte - Levando o poeta ao Fatalismo, tendo a morte como única certeza na vida.
  • Procurar os simples prazeres da vida em todos os sentidos, sem preocupações com o futuro (carpe diem), mas sem excessos - Deste modo aprende a viver cada instante como se fosse o último; e faz da vida simples campestre um ideal (aurea mediocritas);
  • Fugir à dor - Como defesa contra o sofrimento, sobrepõe a razão sobre a emoção;

 Estoicismo

Doutrina que tem como ideal ético a apatia - ausência de envolvimento emocional excessivo que permite a liberdade – , e que propõe as seguintes regras para alcançar a felicidade (relativa, pois não pretende um estado de alegria mas sim de um contentamento inconsciente):
  • Dominar as paixões – Suscita uma atitude de indiferença; Recusa o amor para evitar ter desilusões, de modo a que nada perturbe a serenidade e a razão, e porque este é uma inutilidade e está já condenado, uma vez que tudo na vida tem um fim;
  • Aceitar a ordem universal das coisas, incluindo a morte - Revela a faceta conformista, considerando a vida como efémera, um fluir para a morte e essa consciência não lhe gera nem angústia nem revolta.
Porém, Reis admite a limitação e a fatalidade desta condição humana, e pretende chegar à morte de mãos vazias de modo a não ter nada a perder; e inspirado na mitologia clássica, considera a vida como uma viagem cujo fluir e fim é inevitável.

 Estilo

Poesia com muitas alusões mitológias, com uma linguagem culta e precisa, sem qualquer espontaneidade. Estilo neoclássico influenciado pelo poeta latino Horácio, com utilização frequente da ode. Uso de um vocábulo culto e alatinado com O principal recurso ao hipérbato. Emprego do gerúndio e do imperativo (ou conjuntivo com valor de imperativo) com carácter exortativo, ao serviço do tom sentencioso e do carácter moralista presentes nos seus poemas.